Mudemos Agora! – por Daniel Annenberg

MUDEMOS AGORA!

Por Daniel Annenberg*

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Tomo a liberdade de pegar emprestada um pouco da visão do amigo Nelson Botton e dizer que me sinto cansado. Cansado de ver tanta coisa errada no País, cansado de ter que manter a compostura com um monte de personalidades que me pede coisas absurdas —que geram ou exigem atos irregulares e duvidosos—, cansado de ver tanta corrupção, cansado de ver ódio, cansado de ver pouquíssimas ações para diminuir as desigualdades, cansado de ver tanta pobreza nas periferias de São Paulo, cansado de ver que temos avançado muito lentamente para fazer as melhorias necessárias na área pública —principalmente na Educação e na Saúde. Enfim, muito cansaço…

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Durante a adolescência, acreditava em muita coisa… Um mundo melhor para todos, mais justo, mais honesto, em que as pessoas pudessem ter as mesmas oportunidades. Achava que uma casa de pescador numa praia era suficiente para fazer um homem feliz. Não imaginava, nessa época, como seria chegar na meia idade. Aliás, nem tinha certeza de que chegaria aos 50 anos…

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Sob a minha perspectiva juvenil, 50 era uma idade em que as pessoas eram velhas. E eu tinha certeza de que, se chegasse lá (ou melhor, aqui), teria conseguido contribuir para mudar muita coisa que julgava errada na época —e que, irônica e infelizmente, permanecem erradas até hoje…

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Os meus ídolos do Rock (qua ainda são os mesmos, diga-se) me diziam que a juventude tinha o poder de mudar o mundo. Será? [um dos principais deles, aliás, acaba de falecer: David Bowie].

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Mas, o principal motivo do meu cansaço é não suportar mais ver meu País despedaçado. Não agüento mais ver as pessoas brigando, rivalizando e exaltando ânimos em discussões passionais, num perfeito clima de FlaXFlu.

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Vários petistas amigos meus acreditavam que a chegada do PT ao poder ajudaria a fazer um mundo melhor. Agora, argumentam que, apesar de alguns problemas, este Governo ajudou a diminuir a pobreza no País. Não estão de todo errados.

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De fato, a pobreza diminuiu. Porém, será que isso não poderia ter ocorrido sem que houvesse ao mesmo tempo tanta corrupção? Será que não teria sido importante atrelar o aumento da renda a uma série vigorosa de políticas pública efetivas na área de Educação? Simultaneamente? Acabar com todas as fomes: do corpo, da mente e da alma?

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Trocando em miúdos —e com o perdão do clichê—, porque só deram o peixe em vez de ensinar as pessoas a pescar? E, sobretudo: será que boa parte do que houve não foi consequência do trabalho anterior, elaborado e executado no Governo FHC?

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Ao mesmo tempo, na outra ponta da mesa, vários amigos do PSDB dizem que o atual é o Governo mais corrupto da história. Será verdade? Será que a existência do PT não é fundamental para a nossa democracia? E, principalmente: será que não existe um ódio enrustido contra um Governo do PT e, principalmente, contra a figura do Lula?

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Realmente, são questões que me intrigam e para as quais, admito, não tenho respostas prontas. Em última análise, como diria a sabedoria popular: “é muito fácil bater em cachorro morto”. E, assim, muita gente é contra o PT atualmente.

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Entretanto, minha preocupação real é com o “day after”. Digamos que a presidente Dilma caia. Será que teremos um Governo melhor sob o comando de Michel Temer (PMDB)? Tenho muitas e sérias dúvidas sobre isso…

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E tem uma ainda maior que não se cala: será que só a queda do Governo do PT será suficiente para resolver todos os problemas do Brasil? Óbvio que não. E, sejamos pragmáticos, o mais importante não é exatamente a queda do Governo do PT.

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Relevante mesmo é refletir se vamos, todos, conseguir fazer com que mais pessoas neste País não passem fome, que tenham uma casa para morar, que a educação pública tenha qualidade, que a saúde pública funcione bem. E, por favor, que não exista tanto ódio entre pessoas que pensam de forma diferente.

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Será que isso tudo isso é tão difícil? E será que precisamos destruir o que o outro partido fez para alcançar bons objetivos?

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O mundo no qual acreditei quando jovem não deveria ser como o vejo hoje. Quem sabe ingênuo —ou utópico— demais, via um mundo que poderia ser melhor, bastava que nós lutássemos por nossos sonhos. Apenas.

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É, claro, preciso ponderar o contexto histórico. O fim da ditadura, a campanha pelas Diretas —e a minha idade na época— faziam tudo parecer possível.

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Por isso, acho que, para conseguirmos mudar o rumo das coisas na Política, mais do que qualquer outra coisa, dou minha humilde contribuição sobre o que (acho) deveria ser feito neste momento: o problema não é mais o Partido A ou B. Não é esse o foco do problema. Há mais de 20 anos tiramos outro Presidente do poder por algo muito semelhante. E quanto avançamos? Se tirarmos a atual Presidente, será que vamos realmente mudar alguma coisa dessa vez? Basta só trocar o presidente? Ou não seria mais eficaz revolucionar o Modelo Político do País?

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Diante de tantas perguntas, analisemos algumas propostas que, acredito, podem ajudar a mudar o Brasil para melhor:

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1) Adotar o Sistema Parlamentarista, no qual o Governo caia se não tiver a maioria dos votos no Parlamento, nos moldes de diversos países desenvolvidos;

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2) Criar um Sistema de Representação Distrital Misto, que permita aproximar mais os candidatos dos eleitores/cidadãos e reduza, inclusive, os gastos excessivos em campanhas políticas;

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3) Reduzir o número de partidos políticos e dividir o tempo de televisão e recursos do fundo partidário somente para as legendas que conseguirem 3% do total de votos, no mínimo;

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4) Reduzir os cargos comissionados e evitar a qualquer custo a velha (e infelizmente ainda atual) política do “tomá-la, dá cá”;

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5) Planejar Políticas Públicas consistentes de médio e longo prazos, principalmente nas áreas de Educação e Saúde, com intensa participação da população e acompanhamento de especialistas na execução dos planos;

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6) Implementar medidas que ajudem a criar uma cultura igualitária no atendimento de toda a população nos serviços públicos de todas as esferas e níveis. Sem privilégios. Sem “jeitinhos”.

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7) Simplificar os procedimentos para todas as atividades e serviços dos governos municipais, estaduais e federal;

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8) Fomentar as parcerias entre a iniciativa privada e os governos;

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9) Melhorar e garantir transparência em todos os níveis de Governo;

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10) Inovar e utilizar todas as tecnologias possíveis para melhorar a qualidade da vida das pessoas;

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Sei que boa parte dessas mudanças não é fácil de fazer, já que exigem mudanças da cultura vigente há séculos no Brasil. Refiro-me a uma cultura corporativista, em que levar vantagem parece ser o “dever de todos”, em que cidadãos honestos não são ídolos, nem comovem ninguém. Uma sociedade que venera jogadores de futebol e artistas de TV —e ignora heróis cotidianos, que trabalha(ra)m a vida inteira, seguem as regras com ética e ainda acreditam que honestidade e solidariedade são valores essenciais.

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Em que pese todo o cansaço que pode beirar o pessimismo, ainda acredito que temos força para realizar todas as mudanças que, aliás, são urgentes. Se não tomarmos atitudes agora, o Brasil continuará em clima de retrocesso. Apesar de tudo, não tenho dúvidas de que temos todas as condições necessárias para deixar para os nossos filhos um País bem melhor e mais justo.

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* Daniel Annenberg, gestor público e cientista social, ocupa o cargo de diretor-presidente do DETRAN-SP e vem adotando uma série de medidas inéditas, eficazes e relevantes para tentar acabar com a corrupção na entidade.

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