A persistente sombra do autoritarismo no século XXI por João Paulo Nicolini Gabriel

A persistente sombra do autoritarismo no século XXI
por João Paulo Nicolini Gabriel*

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Escrevo este texto baseado em dois eventos que testemunhei nos últimos dias. O primeiro foi a polêmica frase: “Ansioso para adquirir Minha Luta, de Adolf Hitler?”, acompanhada da imagem do livro com uma suástica em sua capa, no e-mail marketing de uma editora. A querela sobre a nova publicação do livro escrito pelo líder nazista em seu cárcere deu-se mais pelo conteúdo que contém suas páginas e a questão moral sobre os ônus que tal obra poderia trazer nos tempos atuais do que pela infeliz propaganda. As editoras responsáveis pela publicação salientam que esta é uma edição comentada e; destarte, seria crítica e refutaria em seus comentários o conteúdo fascista contido que já é disseminado ilegalmente pela internet.

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O outro evento foram as reações contrárias da mídia estatal do Azerbaijão contra a advogada e ativista de direitos humanos Amal Clooney que assumiu a defesa da jornalista azeri, crítica do atual regime de seu país, Khadija Ismayilova presa acusada de incitar suicídio, entre outras alegações – algo duramente reprovado por organizações de direitos humanos que veem a prisão como resposta às críticas ao presidente Ilham Aliyev. “Clooney foca em Estados turcos para construir sua fama” e “Deve-se notar que Amal Clooney é etnicamente armênia e representa os interesses armênios na Corte Europeia de Direitos Humanos” foram algumas das reprovações emitidas por redes do Azerbaijão que me assustaram pelo tom chauvinista exposto contra a senhorita Clooney .

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Ambos os eventos, e suas consequências, demonstram que o século XXI se difere do “século das democracias liberais”, como muitos prenunciavam nos anos posteriores ao fim da URSS. Quem poderia imaginar que no século da globalização uma organização jihadista fundasse um “pseudo-Estado” se autointitulando Califado e promovendo barbáries que nos remetem aos tempos medievais? Quem pensaria que “doenças negligenciadas” – ebola, zika, sars, etc – bateriam as portas das grandes potências, espalhando o terror para além do “terceiro-mundo” e demonstrando como ainda estamos vulneráveis às epidemias? Ademais, desastres ambientais que ameaçam ecossistemas; a crise político-econômica no Brasil, que outrora elogiado pela Economist, assiste estarrecido aos escândalos de corrupção respingarem até na “alma mais honesta do país”; e outras muitas situações que para nosso desgosto mostram que o mundo encontra-se distante de solucionar questões que perduram há anos. Porém, nada deixa mais alarmados os intelectuais liberais e ativistas de direitos humanos do que a manutenção de regimes totalitários, que por anos perseguem suas oposições e oprimem minorias, e a ascensão ou revigoramento de movimentos xenófobos que, muitas vezes, atuam nas potências que teoricamente deveriam servir como exemplo de respeito aos valores democráticos.

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Atualmente, crises humanitárias produzem milhões de refugiados que se enveredam em perigosas jornadas intuindo encontrar um lugar onde possam levar suas vidas dignamente. Entretanto, sejam os haitianos no Brasil; os rohingyas no sudeste asiático; e os sírios, iraquianos e africanos na União Europeia, todos infelizmente deparam-se com as resistências advindas de movimentos de ultradireita que gradativamente vêm ganhando espaço nos cenários políticos locais com seus discursos preconceituosos e nacionalistas.

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No caso europeu, há sérias dúvidas se será mantida uma das principais bandeiras da União Europeia: a livre-circulação prevista no Espaço Schengen. Como mantê-la com muros de arames farpados na Hungria, bens dos refugiados sendo confiscados em regiões da Alemanha e caminhões sendo intensamente fiscalizados em Calais para evitar a entrada dos que procuram melhores condições de vida na Inglaterra? Até as exemplares socialdemocracias nórdicas tomaram atitudes restritivas neste quesito que vão de confiscos de bens até a deportação de dezenas de milhares. Concomitantemente, movimentos ultranacionalistas tornam-se uma real ameaça aos refugiados e ao processo de integração regional mais complexo que existe. O Pegida na Alemanha, a Aurora Dourada na Grécia, os Democratas Suecos e o Frente Nacional na França viram suas popularidades crescerem nos últimos anos, promovendo teses nacionalistas e xenófobas e aproveitando-se da comoção social causada pelos atentados em Paris ou os assédios sexuais em Colônia para criar uma consciência sobre “o perigo que o imigrante trás às civilizadas nações europeias”.

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Realmente, a situação na Europa não é fácil. Os 28 países do bloco europeu não conseguem entrar em consenso sobre como lidar com a situação dos refugiados e assistem à crescente disseminação do ódio dentro de suas fronteiras. Sabe-se que esta crise humanitária dá-se pelas intermináveis guerras civis entre ditadores e movimentos, moderados ou extremamente violentos, que pretendem tomar o poder ou conseguir sua independência. Porém,diferentemente do que se previa, as principais Organizações Internacionais continuam ineficientes no combate às crises humanitárias e na punição aos ditadores corruptos que não mostram o menor pudor ao oprimir suas próprias populações.

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O engessado e anacrônico modelo, de cinco potências com poder de veto, do Conselho de Segurança da ONU não consegue resolver as questões síria, ucraniana e em Darfur. O Tribunal Penal Internacional enxerga sua importância minguar com a não-ratificação do Estatuto de Roma por grandes potências e com a livre-movimentação de seus foragidos como Al-Bashir (presidente do Sudão). Passou quase em branco o pré-julgamento do comandante do Exército da Resistência do Senhor responsável por cometer atrocidades com crianças em Uganda.

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Parece que o Sistema Internacional aprendeu a conviver com certo grau de autoritarismo quando este serve para manter o status-quo. Que resultados as operações de paz francesas no Mali, Chade e República Centro-Africana obtiveram senão manter os atuais governantes locais no poder? Como declarar “guerra ao terror” e manter uma relação amistosa com ditaduras que restringem liberdades individuais e financiam o jihadismo? Quem são os terroristas que a coalizão liderada pelos sauditas irá combater? Aliás, como combater o Estado Islâmico se alguém continua comprando seu petróleo e os tesouros roubados em Palmira?

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Atualmente, opositores são presos Venezuela, Azerbaijão, Rússia e até na Argentina de Mauricio Macri – que tem tomado importantes medidas econômicas – não ficou claro o porquê de Milagro Sala ser detida; Kim Jong-un parece determinado a conseguir, a qualquer custo, armas de destruição em massa; e pré-candidatos à Casa Branca acreditam que construir um muro na fronteira e fazer a areia do Oriente Médio arder em chamas é capaz de fazer a América ser grande novamente. Ou seja, não parece nada com a “Nova Ordem Mundial” que George H. W. Bush anunciara na década de 90.

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Neste mundo em que movimentos procuram reafirmar as palavras escritas no ‘Minha Luta’ e líderes totalitários prendem opositores, culpam externalidades e criam teorias da conspiração para justificar as mazelas sociais presentes em suas cleptocracias, ainda há pessoas que nos fazem renovar os votos de esperança por um mundo melhor. É aclamável a luta de Barack Obama pela reaproximação dos EUA com Cuba e o acordo nuclear com o Irã; a incansável luta de Angela Merkel para mostrar que é possível acolher os imigrantes na União Europeia; além das lutas pessoais da Malala Yousafzai, Anna Hazare, Papa Francisco, Aung San Suu Kyi, Ai Weiwei, entre outros. Em meio a esta vastidão de concreto, flores conseguem nascer e nos fazem sonhar com a possibilidade de realmente vivermos sem a sombra do autoritarismo.

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João Paulo Nicolini Gabriel tem 21 anos e estuda Relações Internacionais na PUC-SP.

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