Por mais exercício da autocrítica e menos Fla x Flu por Fernando Guimarães

Por mais exercício da autocrítica e menos Fla x Flu

Por Fernando Guimarães

           Se queremos que a sociedade participe da vida política através dos partidos que são o instrumento fundamental da democracia, temos que exercer a cultura de que a filiação não é um cabresto que retira a cidadania das pessoas e as coloca em posição de subserviência intelectual e moral aos caciques que via de regra, transformaram os partidos em meros aparelhos, legendas sem democracia interna, como deles fossem propriedade.

                Ao contrário a sociedade tem que ser chamada para oxigenar os partidos e os tornar de fato representativos, seja através dos que neles militam, se filiam, ou dos que o utilizam como canal de expressão. Para isso precisamos postular e praticar uma posição crítica que faça da vida partidária de fato um instrumento de empoderamento e transformação.

              Se ficarmos só no Fla x Flu seremos não mais que marionetes de campos opostos que se beneficiam do maniqueísmo sem necessariamente praticar coisas tão distintas quanto se diz. É necessária a subversão partidária da qual se referia Mario Covas. Um exemplo atual, para algum alívio da humanidade, está nas vozes dos republicanos que são dissonantes do Trump. E isso ocorre e mais deveria ocorrer por que os princípios devem estar sempre a frente do “jogo político”, seus interesses e suas práticas.

                    Cabe lembrar que um partido têm três funções fundamentais: representar uma doutrina e de forma coerente com ela propor um programa; representar a parcela da sociedade que se sente identificada por essa doutrina; e só por fim buscar chegar ao poder para exercer esse programa. Quando um partido prioriza chegar ao poder sem representar a doutrina que se propôs e através do parlamento o eleitorado que se identifica com essa, é dever do filiado se manifestar contra pois temos um estado de anomia que coloca em xeque o conceito de representação democrática.

                   Pode se observar isso plenamente hoje no governo federal e nos partidos que compõem sua base de sustentação. Temer se elegeu com um programa e hoje cinicamente propõe o oposto. Da mesma forma o PSDB que lá está, hoje defende bandeiras que nunca foram suas, e que jamais serão social-democratas nem no bouquet.

               Sim, claro que eu também gostaria de ver os outros partidos e seus simpatizantes fazendo autocrítica. Aliás, a depender do partido a autocrítica deveria ser muito maior do que a que seguramente nos cabe como tucanos. Infelizmente milhares de militantes que sempre defenderam a ética de forma maniqueísta, como se essa fosse não um dever universal, mas um monopólio do seu partido, ainda diante de todos os fatos históricos e das condenações judiciais em última instância, se fazem de moucos, de roucos e jamais escreveram uma única linha de mea-culpa.

                  Mas se ainda queremos mudar a forma de fazer política – foi para isso que surgiu o PSDB em 1988 – não tenhamos dúvida em ousar uma nova prática que exercida de forma sincera e coerente, terá o reconhecimento da sociedade.

                Essa nova prática pressupõe ir além de apontar o dedo para o outro, mas produzir a autocrítica que em um século onde toda a sociedade está conectada não pode ser mais feita como antes, apenas a portas fechadas. Precisamos adotar uma postura mais humilde, que permita o diálogo. Temos que agir pelos princípios e valores que nos norteiam. Não podemos subestimar uns aos outros ou terminaremos todos idiotizados. É muito preocupante que as redes sociais no seu aspecto político se convertam em um universo de pessoas inseridas em suas bolhas, seus conjuntos de amigos e simpatizantes, que se constituem e se separam conforme a cor da camisa que defendem, para propagar cânticos ofensivos como os de uma torcida organizada. Essa divisão que nada constrói, só interessa a alguns políticos com “p” minúsculo, ou com “B” maiúsculo, que precisam disso para sustentar o discurso de ódio, mas não serve aos interesses do país, do povo e de qualquer um que se pretenda um estadista.

             Democracia pressupõe muito mais que um Fla x Flu, é necessária a busca de consensos mínimos, que assegurem e se sustentem a partir de um máximo de participação e de diálogo.

Fernando Guimarães, 42 anos é Cientista Político, coordenador nacional do Movimento PSDB Esquerda Pra Valer, Delegado Nacional do PSDB, Membro do Diretório Estadual do PSDB-SP, e Membro da Executiva Municipal do PSDB de São Paulo.