A Esquerda que Queremos

A Esquerda que Queremos

A Esquerda Pra Valer, a que nos referimos, se fundamenta no conceito explicitado pelo cientista político Norberto Bobbio em seu livro “Direita e Esquerda”. Segundo o pensador italiano, o que distingue a esquerda da direita é seu posicionamento diante da ideia de igualdade. Para a esquerda, as desigualdades têm causas sociais e devem ser eliminadas; para a direita, as desigualdades são naturais, portanto inevitáveis.

No entanto é preciso ter claro que defendemos uma posição de esquerda à luz do século XXI e não das perspectivas da esquerda no século XX, que foram superadas pela história ao incorrer no equívoco autoritário. A questão central para se pensar estrategicamente a esquerda hoje não é o dilema privatização X estatização (sem desmerecer a relevância desse tema que deve ser tratado sem dogmas), mas fundamentalmente o sistema educacional, cultural e político do país.

Se as transformações sociais pretendidas para eliminar as causas sociais da desigualdade dependem do crescimento econômico, esse por sua vez encontra suas condições no progresso tecnológico e ambientalmente sustentável; se um dos mais graves desafios do nosso tempo é a empregabilidade, precisamos ter clareza de que a ocupação humana estará cada vez mais direcionada às atividades que exijam criatividade e que assim não poderão ser substituídas pelas máquinas, privilegiando-se os campos das artes, do turismo, do empreendedorismo e da ação social; ao mesmo tempo face à velocidade com que se propaga o conhecimento, demandam-se decisões pautadas no campo da ética que devem ser buscadas com mais e melhor democracia. Se quisermos dar fim às razões da desigualdade e pleitear a construção de uma sociedade justa é preciso recusar que um mero sistema de ensino permita-nos continuar replicando os equívocos de nossa sociedade, é preciso ousar uma nova perspectiva de educação, plena, capaz de dialogar com o século XXI. Sem isso não há caminho possível para o que desejamos.

Esse mesmo diálogo se faz necessário aos atores políticos de uma esquerda que realmente deseja mudanças. Um bom exemplo é a realidade latino-americana. Que mudanças poderão trazer a esquerda que ora está no poder, sendo ela conceitualmente atrasada, com seu nacionalismo populista ultrapassado, sem projeto outro senão permanecer no poder a todo custo, mesmo que esse custo seja o desmantelamento do próprio Estado, o desrespeito à democracia, suas instituições e seus cidadãos e a desintegração das nações que tanto nos fragiliza?

A doutrina do século XIX foi a da igualdade, no entanto a experiência do socialismo real do século XX ao reprimir a liberdade, conflitou com a essência da alma humana, assim os muros foram derrubados. A doutrina do século XX foi a construção de um mundo cujo principal valor seria a liberdade, mas a realidade demonstrou que ninguém pode ser realmente livre sem ter acesso a igualdade de oportunidades. Desta forma acreditamos que dos ideais da revolução francesa, igualdade, liberdade e fraternidade, esse último é essencial para abrir os caminhos do século XXI para uma nova sociedade. Uma sociedade fraterna, justa e efetivamente democrática. Portanto, a reflexão de esquerda que propomos, converge sociais democratas, socialistas democráticos, verdes e democratas cristãos, com a coragem de enfrentar e transformar a dura realidade sem abrir mão das utopias que nos dão o norte. Pois como dizia Dom Hélder Câmara e por tantas vezes lembrou André Franco Montoro “Quando sonhamos sozinhos é só um sonho, mas quando sonhamos juntos é o começo de uma nova realidade”. Esperamos contribuir para essa nova realidade. Uma realidade de esquerda pra valer.